quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Beckett e a Resistência Francesa


Trechos de um artigo de Terry Eagleton sobre Samuel Beckett, publicado em 2006.

[Beckett] não era um espírito independente do tempo, mas um protestante irlandês do sul de seu país, integrante de uma minoria assediada por alienígenas culturais cercados dentro do triunfalista Estado católico livre. Enquanto mansões anglo-irlandesas eram incendiadas por republicanos durante a guerra da independência, muitos protestantes fugiram para a Inglaterra. A paranóia, a insegurança crônica e a marginalidade consciente de si da obra de Beckett fazem bem mais sentido quando vistas sob essa luz.
[...]

Mas há uma qualidade distintamente irlandesa na deflação feita por Beckett do bombástico e extravagante, assim como há algo reconhecivelmente irlandês naquelas paisagens áridas e estagnadas onde, como vítimas coloniais, não se fazia nada a não ser ficar sentado, aguardando uma libertação ou um resgate.
Assim, não é surpreendente que esse mestre da arte dos despossuídos tenha se visto, em 1941, combatendo ao lado da Resistência francesa. Vivendo em Paris sob a ocupação alemã, ele se juntou a uma célula que fazia parte das Operações Especiais Britânicas e aplicou sua habilidade literária no trabalho de datilografar e traduzir informações secretas.
[...]

Fato incomum entre artistas modernistas, esse suposto divulgador do niilismo era militante da esquerda, em lugar da direita. Defensor do ambíguo e do indeterminado, sua arte provisória e fragmentária é supremamente antitotalitária.
É também uma arte nascida à sombra de Auschwitz, que conserva sua fidelidade ao silêncio e ao terror ao enxugar sua linguagem, seus personagens e suas narrativas quase até o desaparecimento. É a obra de um homem que compreendia que o realismo sóbrio e sombrio serve à causa da emancipação humana melhor do que a utopia sonhadora.


Fonte: Folha de S. Paulo, mais!, 09 de abril de 2006.
Texto original em inglês em The Guardian.

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